Várias pessoas têm me perguntado como conseguir um visto de trabalho aqui nos EUA, e se é fácil trabalhar na indústria cinematográfica de LA. Pra começar, eu diria que não é impossível, mas também não é moleza. Então vou contar o que eu levantei sobre o tema nas últimas duas semanas.
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Nos EUA, o pagamento de salário está associado ao Social Security Card (SSC), um documento semelhante ao nosso Cadastro de Pessoa Física (CPF). Sem ele, não há como trabalhar legalmente aqui. Todo o sistema de crédito financeiro está atrelado a ele, tornando praticamente impossível conseguir financiamentos e até cartões de créditos de lojas se você não tem esse SSC.
Tudo bem, é sabido que imigrantes ilegais vêm pra cá trabalhar, mas são subempregos geralmente mal remunerados e a pessoa tem que se sujeitar a qualquer coisa porque não está em posição de exigir seus direitos. Geralmente, executam atividades necessárias à sociedade mas que os americanos não morrem de amores por fazer: faxina, guardar carros, ajudante de cozinha, balconista de mercearia. Até pra ser garçonete, é preciso disputar vaga com os milhares de atores americanos que vêm pra cá atraídos pelo sonho de fama e fortuna. Ou seja, nem preciso dizer que cinema não é uma atividade nem um pouco desvalorizada pelos americanos, preciso?
Na indústria cinematográfica, as regras de trabalho, portanto, são bem rígidas. As produções obedecem estritamente a lei e só contratam quem pode receber salário legalmente. Não há jeitinho brasileiro que dê jeito nisso. Ouvi dizer que os grandes canais de tevê só contratam se você tiver, além do SSC, um visto de permanência no país, principalmente quando se trata de atores.
Mesmo morando há praticamente um ano nos EUA, sou considerada visitante de intercâmbio (não-residente) pelo governo americano, entende? Um visto de estudante só é válido se atrelado a uma instituição de ensino na qual você está matriculado e não dá permissão para trabalhar, nem por meio expediente — diferentemente de vários países da Europa.
Outro fator a ser levado em consideração por estrangeiros que pretendem estudar na Nyfa é que os cursos são intensivos. Há aulas e atividades o dia todo, às vezes até por 10, 12 horas seguidas. Portanto, não consigo conceber como alguém poderia ao mesmo tempo estudar na Nyfa e trabalhar (mesmo que ilegalmente). Esqueça.
No entanto, o governo americano mui gentilmente, nos proporciona uma chance de aprimorar nossos conhecimentos no mercado cinematográfico: chama-se Optional Practical Training (OPT). O visto não muda, continua sendo de estudante/visitante atrelado à instituição de ensino de origem. Mas, durante um período de 12 meses após a sua graduação, você recebe um Social Security Card para trabalhar.
Atenção: somente cursos com duração de um ano ou mais dão direito a solicitar esse privilégio. Nem pense em vir fazer um curso de um mês e achar que vai poder trabalhar aqui legalmente, não rola.
O OPT tem uma lista imensa de regras e papelada, mas resumindo: custa 380 dólares pra solicitar; uma vez no programa você não pode ficar desempregado por mais de três meses ou perde a chance; é preciso trabalhar por pelo menos 20 horas semanais; não precisa ser necessariamente remunerado (participar de curtas estudantis surpreendentemente conta como trabalho); e não é permitido estudar enquanto está no OPT. Outro ponto importante: a escola te ajuda em toda a documentação, mas conseguir o emprego é por sua conta. Se no Brasil é assim — nunca vi faculdade arranjando emprego pra ex-aluno –, não vejo porque aqui seria diferente, certo?
Além disso, o OPT só pode ser solicitado uma vez. Ou seja, pros espertinhos de plantão, não dá pra fazer um curso de dois anos, cursando a metade, parando, fazendo OPT e juntando dinheiro, depois fazendo o segundo ano e pedindo outro OPT pra cobrir as despesas.
E depois do OPT, o que acontece? Há várias opções, as que consigo pensar de pronto: 1) Uma das empresas que te empregou fica encantada com seu talento e resolve patrocinar a sua permanência nos EUA, contratando advogados e entrando com um extenso e complicado processo pra mudar seu visto para residente e garantir que você continue trabalhando pra ela. 2) Você arruma as malas e volta pro Brasil com uma big experiência e grandes chances de conseguir uma boa colocação na área; 3) Permanece nos EUA em um dos subempregos citados acima, sonhando em se tornar cineasta famoso, sem no entanto poder trabalhar em nenhuma produção promissora porque está ilegal.
Bom, é isso. Acho que deu pra ter uma boa idéia do quadro, né?
Gabriela Egito é jornalista, mestre em Cinema pela Universidade de São Paulo (Brasil) e atualmente cursa o programa de Filmmaking na New York Film Academy, em Los Angeles. É também autora do blog Brazilian Girl in L.A., onde conta suas aventuras cinematográficas