Fazer cinema é basicamente contar histórias utilizando imagens e sons, certo? Tudo começa com uma idéia, depois vem o roteiro e o famigerado orçamento, claro.
É como uma montanha-russa. Você começa no topo, deixando a criatividade fluir e voar. Depois você percebe que o que você sonhou não é tão fácil de fazer — especialmente se você não tiver dinheiro suficiente. E você dispara em queda livre com aquele friozinho na barriga.
Mas deixa eu te contar um segredinho que meu professor nos revelou: ninguém nunca tem dinheiro suficiente pra fazer um filme. Mesmo o James Cameron não teve todo o dinheiro que ele queria pra fazer Avatar. Acredite ou não. Nós sempre temos que reduzir os nossos delírios megalomaníacos a algo exeqüível.

Então, depois de uma queda vertiginosa começamos a subir lentamente de novo. O script é agora possível de filmar. Desenhamos os mapas de navegação: cronograma de filmagens, lista de shots, planta baixa dos shots. É hora de selecionar o elenco, achar as locações, arranjar adereços e figurino. E você chega ao topo da colina novamente.
Depois vem uma queda ainda mais rápida: as filmagens. Você tem de dirigir os atores, conversar com a equipe, decidir o como, o quando, o que filmar. Se você tiver sorte e se preparar pro imprevisível, você terá tempo suficiente pra tudo. Mas normalmente você tem é que tomar decisões rápidas, cortar cenas, reorganizar o material. É como trocar o pneu com o carro em movimento. Seu ator lhe dá uma boa idéia e você muda. Seu diretor de fotografia sugere um novo take e você acata. Se for interessante, porque não? Você quer alcançar o melhor possível, não é?
Quando você chega ao final das filmagens, você atinge o fundo do poço novamente. E está tão exausto que não pode sequer pensar, comer, dormir. Mas o filme ainda não está acabado.
Na verdade, é quando o filme realmente começa — na sala escura, em frente a um computador. É hora de fazer o esforço supremo de esquecer tudo o que você ralou até o momento. Esqueça o script. Confira todas as imagens que você tem. Analise o desempenho dos atores. Pense visualmente. E, sim, corte com força tudo o que não funciona. Eu acho que essa é a parte mais difícil. Após todo o esforço hercúleo empregado, você quer manter tudo o que foi legal, tudo que foi divertido fazer, tudo que é fashion. Desculpe, não dá.
O filme tem que funcionar e às vezes você precisa cortar uma perna ou um braço pra que isso aconteça. Seja corajoso e simplesmente faça — doa a quem doer. Corte personagens inteiros, se necessário. Aquele seu amigo que acha que pode ser ator vai ficar de mal com você por um tempo, mas pense que é por uma boa causa. Diga a ele que o diretor de fotografia fez uma besteira e estragou a cena! Seja criativo nas suas desculpas, mas corte na cepa.
Nada vale mais a pena do que assistir seu filme com a platéia e: eles riem quando devem rir, choram quando você queria que eles chorassem, e eles simplesmente… adoram o seu trabalho!
Então, se você quiser saber mais sobre edição dê uma olhada no livro que é recomendado por 11 entre 10 professores norte-americanos de cinema: Num piscar de olhos, do Walter Murch. Falarei mais sobre isso em breve. Há também um documentário incrível chamado The Cutting Edge: The Magic of Movie Editing. Não perca!
E se você está pensando "por que raios ela está me escrevendo isso? Eu não quero ser um editor!". Quer saber? Eu também não! Mas pra ser não um cineastazinho de meia tigela mas um senhor cineasta, você tem que saber o que a edição é e por que ela pode salvar (ou destruir) o seu filme. Edição pode mudar a sua vida! Você quer ser apenas mais um ou você quer se destacar?
Gabriela Egito é jornalista, mestre em Cinema pela Universidade de São Paulo (Brasil) e atualmente cursa o programa de Filmmaking na New York Film Academy, em Los Angeles. É também autora do blog Brazilian Girl in L.A., onde conta suas aventuras cinematográficas.





Smurfet












Que ótimo artigo, Gabriela. Adorei. Muito bom! Parabéns!!
Cá pra nós, o meu professor disse que o filme “Beleza Americana” (American Beauty, 1999) mudou completamente na edição. Segundo ele, a história era pra ser da Annette Bening, mas eles fizeram exibições de teste e a platéia detestou ela. Daí transformaram o Kevin Spacey em protagonista e incluíram a narração em off pra dar uma guaribada. Não sei se acredito pq meu prof é um contador de histórias e tanto. Mas talvez alguém queira se aventurar a pesquisar isso.
Ah! Se gostou do tema, dê uma passadinha no 4 elementos e leia: “Edição é fazer Ctrl+C e Ctrl+V?” (http://4elementosnitro.blogspot.com/2010/09/edicao-e-fazer-ctrlc-e-ctrlv.html)