“Adeus Minha Concubina” é uma obra de Kaige Chen que retrata um dramático triângulo amoroso dentro de uma China em ebulição política num período de 55 anos, aproximadamente. Apesar da enorme tormenta ter afetado o país dentro deste período, a cultura e a arte clássica da China se manteve de pé resistindo bravamente.

Dentro deste universo, Kaige Chen fez dois filmes dentro de um. Um filme histórico e outro melodramático. A complementaridade destas duas partes reforçam os temas abordados no filme. Se olharmos de forma holística, notaremos que um dos temas abordados, a traição, é explorada tanto entre o trio amoroso quanto na relação entre os chineses e as tropas japonesas.
E o personagem Cheng Dieyi é o representante máximo deste tema. Apesar de não ser o único a trair, ele é o elemento do filme que iconiza este ato. Elementos periféricos corroboram na construção desta iconização, como a atitude de sua mãe ao levá-lo à companhia de atores, as humilhações dentro desta companhia, o abuso sexual etc.
O apuro fotográfico é bastante relevante para o reforço das mensagens transmitidas pelo filme. O uso intenso do vermelho no cenário e objetos de cena intensificam a sensação de agressividade emocional que sofrem os personagens. A presença do vermelho no figurino realça o sentimento que determinado personagem sente dentro de uma ação. Mas não apenas as cores, mas as composições visuais e os enquadramentos complementam os significantes presentes na obra.
O som é especialmente trabalhado para reforçar duas sensações distintas: Desespero e alívio. O desespero quando os garotos apanham e sofrem toda a pressão psicológica. Em conjunto com a fotografia, o som é magistralmemte acertivo. E o alívio, que acontece nas encenações da ópera clássica.

É uma realização de profundo prazer a encenação da ópera para Xiaolou e, principalmente, para Cheng, então o som dos instrumentos, dos cânticos e dos movimentos funcionam como escapismo para os dramas dos dois. Um momento único de satisfação profunda.
Cheng, por sua vez, encara a ópera de maneira diferente a Xiaolou. Ele absorve com tanta força a essência do seu personagem (a concubina) que chega a confundir-se entre a encenação e a realidade. Desde criança que Cheng recebeu uma educação rígida de desconstrução. Ele precisou pensar como uma menina, agir como uma menina e pensar ser uma menina para poder desempenhar um bom papel na ópera.
Este processo foi tão enfático que Cheng realmente passou a achar que fosse uma concubina que deveria devotar a sua vida ao seu Rei (encenado por Xiaolou). Mesmo sendo por natureza um homem, ele já não conseguia associar a sua pessoa ao comportamento masculino. Sua vida passou a ser a encenação da ópera, no papel da concubina. Esta fuga da realidade afetou Xiaolou quando ele noivou com Juxian, que era prostituta.
Cheng acreditava que viveria para sempre com Xiaolou e quando Juxian surgiu, ele se sentiu traído pelo seu parceiro de ópera. Sua mãe também era uma prostituta e isso pode ter afetado a sua impressão à Juxian. Cheng se sentia traído pela sua própria mãe quando o abandonou na companhia e esse sentimento pode ter renascido quando ele encontrou Joxian. Cheng transforma-se e acaba vendo a sua relação com Xiaolou ser abalada. Ele credita esses males a Joxian.
Todo esse processo de escapismo da realidade e sentimentos confusos de Cheng são mostrados através de sinais visuais ao longo do filme, como o comportamento de Cheng em relação as pessoas e a Xiaolou, sua linguagem corporal não-natural, a obsessão pela maquiagem e pelo reconhecimento público.
"Adeus minha Concubina" é uma demonstração de como um grande épico pode funcionar. O que eu sabia sobre os momentos importantes na história da China moderna aprendi na escola, mas este filme me ajudou a sentir e imaginar como era viver no país durante esses tempos.
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Smurfet












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