Bruno Davert (José Garcia), um executivo da indústria de papéis, está a dois anos sem conseguir emprego e ao ver suas economias chegarem ao fim sente que seu estilo de vida está ameaçado. Isso acaba fazendo com que Bruno enlouqueça e comece a traçar um mirabolante plano para recuperar seu emprego: assassinar o homem que ficou no seu lugar e todos os possíveis concorrentes. O filme alterna as incursões criminosas de nosso anti-herói com uma outra empreitada igualmente complicada, que é manter sua família na ignorância e unida apesar da crise.
Esta é a premissa da obra "O Corte" que é um dos filmes mais fascinantes que eu já vi. Foi uma das primeiras obras assistidas por mim fora do eixo hollywoodiano e logo me causou impacto pelos profundos temas abordados no filme e pela narrativa fluída e leve do roteiro.
Apesar do roteiro ser muito bem estruturado, devemos levar em consideração que é bastante inverossímil o fato da polícia não encontrar as claras pistas que Bruno, por seu amadorismo na arte do crime, deixou para trás, como por exemplo a sua pouca preocupação com testemunhas, afinal ele estava sempre no mesmo carro; O uso da mesma arma, as marcas do duplo atropelamento no garçom do bar L’Etape, as impressões digitais sobre o corpo do desempregado que cria abelhas entre outros. Mas não me preocupo com isso, afinal, a partir do momento que Costa-Gavras assume um filme leve e bem-humorado, estes detalhes demasiadamente sérios comprometeriam a essência proposta pelo diretor e logo são facilmente rejeitados pela minha análise.
No intuito de explorar de forma organizada e em sua profundidade, falarei de cada aspecto estudado em "O Corte" separadamente:
Crítica ao sistema econômico mundial
Fica claro ao espectador a mensagem que Costa-Gavras quer passar. Ele critica de forma muito inteligente e com humor negro o sistema capitalista que vigora no mundo. Quem já conhece seu portfólio fílmico, sabe que este tipo de crítica é comum e forte em suas obras. No entanto "O Corte" foi o primeiro filme que Costa-Gavras usa a comédia, com refino anti-heróico, para tratar deste e de outros assuntos divergentes à ideologia do diretor. Alguns pensamentos de Bruno refletem bem esta ideia anti-capitalista, como o momento onde ele acusa os acionistas de inimigos dos trabalhadores, por retirar o dinheiro da saúde para distribuir aos gananciosos.
"Restruturação antes da recolocação. Resultado de 16% de lucro para os acionistas e 2 anos de desemprego para mim". Esta frase foi dita por Bruno na entrevista de emprego que ele participa na empresa de embalagens. É paradoxal, afinal ao mesmo tempo que entendemos a insatisfação de Bruno com o sistema capitalista por privilegiar a fortuna dos acionistas, ao mesmo tempo ele quer recuperar todas as regalias que o seu antigo emprego o proporcionava a sua vida. Sem este emprego Bruno não poderia viver. E pra completar, a entrevistadora ainda pergunta a Bruno se ele tinha ações da sua empresa e ele diz que tinha mas que havia vendido. Aí ela diz: Então você ganhou os 16% de bônus, não é? Ele fica mudo.
Contexto econômico do país
O filme se passa na França. Aparentemente é atemporal, no entanto podemos observar pelas roupas usadas pelos filhos de Bruno, corte de cabelo do Maxime (filho deles), tecnologias presentes, como o mini gravador de voz, veículos e outros objetos de cena que o filme se passa na primeira metade da década de 00 do século XXI.
No início do novo século, a França começou a dar sinais de enfraquecimento econômico. Isso afetaria em cheio a política social francesa, que dependia do bem estar da sua economia para se sustentar. Nada se fez pra mudar a situação e a crise foi se agravando, até chegar em 2004 numa situação bastante complicada, com altíssimos índices de desemprego nas periferias e grande discriminação. O auge da crise foi em 2005, quando uma onda de violência graças as insatisfação popular se instaurou no país. E foi justamente no ano de lançamento de "O Corte".
No filme, podemos ver estes problemas mais de perto. Com certo ambiente cômico, eu sei, mas bastante claro pra qualquer um que assista. Até parece que o filme previa a onda de violência que a França mergulharia. É como se toda a França encarnasse Bruno Davert e tentasse reassumir a sua posição que outrora foi de exemplo social para todo o mundo.

Existe uma sugestão implícita no filme de que a violência está crescendo na França. Estas sugestões ficam evidentes nas conversas entre Bruno e o garçom, entre Bruno e o chefe de polícia na delegacia onde seu filho está preso. E nestas duas cenas, o diretor sugere, bem sutilmente, uma relação entre as recolocações das empresas e a elevação dos crimes no país.





Smurfet











