
Nesta semana o Tecnologia e Cinema teve a honra de entrevistar o autor do livro "O Marido Perfeito Mora ao Lado", Felipe Pena, que lançou a sua obra no mês de março e já conta com um enorme público leitor. Conheça um pouco sobre este autor e a sua obra:
TeC – Felipe Pena, você é Doutor em Letras, Jornalista, Professor e autor de 8 livros acadêmicos na área de comunicação. No entanto já está em seu segundo romance. Estas formações e a sua experiência no ambiente universitário de alguma forma influência o seu estilo de pensar e escrever seus romances?
Felipe Pena – A passagem pela academia, com doutorado e pós-doutorado, ajuda e atrapalha. A formação como jornalista, por exemplo, me ajudou muito. Do jornalismo, trago as técnicas de apuração e síntese, o gosto pelo detalhe e a pressão do deadline, que é minha principal fonte de inspiração (risos). Mas não sigo a orientação canônica do doutorado em literatura. Os ditames da academia atrapalham o escritor. Hoje, há muita gente escrevendo apenas para agradar a uma parcela da crítica, cujos parâmetros de análise ainda seguem um modelo obsoleto de análise da linguagem. Sou professor, oriento teses de mestrado e doutorado, mas tento evitar essa má influência (risos).
O marido perfeito mora ao lado é uma história de amor. Fala da incomunicabilidade entre os casais, da dificuldade de entender o outro, das armadilhas da paixão. Eu só podia falar sobre isso em uma linguagem simples, direta, pois são problemas pelos quais todos nós já passamos. Mas é claro que eu escolhi uma estratégia narrativa com a pretensão de prender o leitor, de não deixá-lo largar o livro. Há muitas viradas no enredo, muitas surpresas. E eu espero que o final seja surpreendente.
TeC – Quais são os autores que te inspiram em suas investidas literárias?
FP – Meus clássicos são Balzac, Hemingway, Poe, Freud, García Márquez e Rubem Fonseca. Mas também sou influenciado pela poesia, pela música popular e até pela internet. Escrevo misturando técnicas do folhetim e do policial, mas sempre penso no ritmo e na melodia das frases. Tenho a pretensão de seduzir o leitor, de fazê-lo virar a página. Esse é meu único objetivo. Se você disser que não conseguiu largar o livro, terá feito o melhor elogio que posso receber. Esse será meu maior prêmio.
TeC – Outro dia estava ouvindo um podcast (programa de rádio feito pra internet) com a presença do escritor Eduardo Spohr (A Batalha do Apocalipse, Nerdbooks) e foi questionado a seleção de livros indicados na escola para leitura dos alunos. Enquanto na Europa indicam Tolkien, Adams etc, no Brasil forçam o aluno a ler e gostar de Machado de Assis, Aluisio Azevedo etc. A grande maioria se sente desestimulada a ler e começam a falar que ler livros é uma tarefa chata. O que você pensa sobre isso?
FP – Recentemente, o Zuenir Ventura tocou nesse assunto em sua coluna no Globo ao falar sobre os romances que são obrigatórios para os adolescentes na escola. Se não houver prazer na leitura como vamos formar leitores? Concordo com ele.
TeC – Numa entrevista recente ao Tecnologia e Cinema, o escritor Luis Eduardo Matta comentou que hoje está mais fácil de discutir a literatura do entretenimento do que antes, por exemplo no inicio dos anos 90, em grande parte favorecido pela grande expressão popular que tem a internet. O que você pensa sobre a literatura de entretenimento e sobre essa afirmação do Matta?
FP – Toda literatura é entretenimento. Entretenimento não é passatempo, é sedução pela palavra. Entretanto, é fácil verificar que boa parte dos escritores contemporâneos não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade literária. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos.
Não quero dizer que esse tipo de literatura não deva ser produzida. É o contrário. Respeito e admiro muitos destes escritores. Cada um escreve como pode. Apenas defendo que também exista espaço nos suplementos literários para escritores que estão preocupados em formar leitores, com enredos lúdicos e bem articulados, que resgatem o prazer da leitura.
TeC – De onde surgiu a ideia de escrever “O marido perfeito mora ao lado”? Você teve alguma referência ou inspiração para tal?
FP – Sou jornalista, faço pesquisa de campo, mas todos os personagens são ficcionais. Posso misturar observações sobre personagens reais, mas nunca os transporto para o enredo. Cada personagem é uma mistura de diversas características de diferentes pessoas com invenções sobre essas características. Nenhum personagem é baseado numa pessoa, muito menos emite qualquer tipo de juízo. Em alguns casos, fica clara a preocupação com uma determinada ética, mas nunca com uma moral. Isso seria um erro.
TeC – Qual foi a sua maior dificuldade ao escrever este romance?
FP – Escrever é sempre difícil. Pode ser uma carta ou um romance. Em “o marido perfeito mora ao lado” tive a intenção de brincar um pouco com o excesso de psicologismo de alguns romances contemporâneos. Daí a nota descrevendo o livro como uma caricatura psicoliterária. Ao mesmo tempo, acho que os conceitos podem ajudar no enredo, trazer alguma informação para o leitor. O livro fala de casais, da incomunicabilidade entre homens e mulheres, das dificuldades inerentes à paixão. Então, a psicologia passa a ter um papel na trama, para pontuar essas dificuldades.
Mas a verdade mesmo é que eu quis apenas escrever uma história de amor. Só isso.
TeC – Nossos leitores, ávidos por cinema, devem estar querendo saber se o seu livro poderá ser adaptado para as telas cinematográficas no futuro. Você tem interesse que isso aconteça? Existe algum planejamento para isso?
FP – Algumas produtoras já fizeram contato e eu estou estudando o assunto. Mas o estranho é que eu não penso no romance em termos de imagem ou como o roteiro de um filme. Se isso acontece deve ser por influência estética mesmo, não por opção consciente. Mas confesso que, às vezes, utilizo as vozes de alguns atores que gosto para pensar nos personagens. Para visualizar a Nicole, por exemplo, que está nos dois romances, às vezes imaginava a Mariana Ximenes ou a Maria Fernanda Cândido, tentando pensar na sensualidade, no carisma da personagem. Mas isso é apenas um truque. Não é determinante na escrita.
TeC – Você tem algum recado a dar aos futuros leitores do “O marido perfeito mora ao lado”?
FP – Pensem em contar uma boa história. A literatura brasileira contemporânea tem poucos autores dispostos a contar uma boa história, sem a preocupação de produzir experimentalismos e jogos de linguagem, mas eles convivem com o receio de serem arbitrariamente rotulados como superficiais. Só que a realidade é inversa. Escrever fácil é muito difícil. Em literatura, entretenimento, não é passatempo, é sedução pela palavra. E se for apenas passatempo, qual é o problema?
Apesar da tão apregoada diversidade da prosa nacional, uma parte da crítica acadêmica (sou professor universitário e isso é um mea culpa) dividiu-a em pólos antagônicos. Quem não é moderninho, é superficial. E ponto final. Essa é a generalização leviana da nossa literatura. É ela que produz distorções, afasta leitores e joga sua névoa sobre o mundo literário.
O livro "O Marido Perfeito Mora ao Lado" pode ser encontrado na livraria Saraiva e na livraria da Travessa