
O curta-metragem de animação “Pax”, escrito e dirigido por Paulo Munhoz relativiza uma situação extrema no mundo, onde os principais grupos religiosos precisam achar uma solução em conjunto para que o caos não se instale na sociedade. A partir desta idéia, Munhoz desenvolve uma bela animação em stop-motion de forma bastante suave, cômica e irrigada com gotas magistrais de inteligência numa crítica à sociedade moderna.
Após a sequência inicial do planeta explodindo e se reconstituindo, entramos de fato no ambiente da reunião dos representantes religiosos. Nos primeiros planos desta sala de reunião, temos a apresentação de cada representante, com uma fala em planos próximos, iniciando a construção dos personagens, através de marcas de suas personalidades. A partir desta construção, temos o traçado para os conflitos que serão gerados mediante as divergências de opinião desses líderes.
O trabalho de fotografia colabora com a montagem do filme, quando, através de luz e sombras, dá o tom do momento. Como exemplo, temos na primeira rixa entre os líderes uma sequência de planos close-up com menos luz que os planos anteriores, enfatizando o desequilíbrio da harmonia entre as partes da reunião. Ainda nesta sequência, uma forma muito interessante que o diretor encontrou para quebrar o clima criado foi com o primeiro plano da porta se abrindo, quando entra uma linda secretária para servir café para todos. É o momento de distração. Quebra o clima anterior e renova a idéia de que o entendimento entre eles é necessário.
Soluções inteligentes de linguagem foram usadas para não massificar o uso do plano-contraplano. Podemos observar dois travellings muito bem executados em plano de muito diálogo. Devemos lembrar que não é fácil fazer um travellling em um filme de animação stop-motion. Outras soluções de linguagem utilizadas com outros propósitos, como realçar uma fala ou momento, também foram usadas com parcimônia, como o Zoom In durante a fala do xeque: Primos, eu tenho a solução: O Islã!
Após mais uma discórdia na reunião, a figura da secretária entra novamente em cena e tem o mesmo efeito da sua primeira aparição. Só que, desta vez a harmonia dura menos tempo e a confusão se generaliza. Surge a figura do preto-velho pra tentar trazer a harmonia e o entendimento à reunião. Em se tratando de montagem, a sua aparição funciona exatamente como a figura da secretária, só que desta vez a intervenção é mais enfática e decisiva.
No momento da pancadaria, a música de fundo reforça a intensidade da cena, contribuindo com a expectativa que a ação gera. A própria música escolhida acaba remetendo o que está por vir, pois os sons de batuques lembram exatamente um ritual africano. Com a chegada do preto-velho, a música cessa. Temos aí a transição de um momento catastrófico para uma tentativa de reorganização das idéias a serem postas na reunião.
A de se observar que, durante todo o momento em que o preto-velho dialoga com os líderes, o vemos em contra-plongeé, realçando que ele é uma figura que está em outro patamar de sabedoria espiritual em relação aos humanos presentes e que deve ser encarado como um mentor. Após a sua ida, todos entram em acordo e, durante a oficialização da idéia da ONG, vemos a confraternização em plongeé, como se o preto-velho os observasse de cima, em pura aceitação.
E, já nos finalmentes do curta, chegamos, enfim, a concórdia entre as partes, de que seria necessário um tesoureiro para a ONG, mas que precisaria ser um representante neutro. Eis que o Diabo surge como expressão máxima desta característica. Um desfecho surpreendente e fascinante aos olhos de uma crítica à sociedade capitalista e materialista.
Portanto, em linhas gerais, a trilha sonora é bastante pontual e sem exageros. Sua presença é tão sutil que, se você assistir apenas uma vez a animação, é capaz de ficar em dúvida se tinha ou não tinha música no fundo. Percebemos poucos efeitos sonoros diegéticos, mas que não comprometem o filme, já que a ênfase está nos diálogos. Ao passo que os efeitos sonoros não diegéticos, que também são econômicos, são fundamentais para a condução da narrativa, sem deixar a carga dramática fugir de controle. O bom uso da linguagem de cinema é evidente e, com a sua moderação, dá o tom da narrativa. O ritmo da montagem é bem equilibrado. Nem lento e nem rápido, o que favorece a fácil assimilação do que acontece na reunião e ajuda a controlar os picos dramáticos decorrentes do curta.
Rafael Cruz vive em Maricá-RJ, é cineasta pela UFF, doutorando em administração pela UTAD (Portugal), investidor, fundador da Nerd Rico, escritor, torce para o Fluminense, adora xadrez, uma boa partida de tênis, é fã de Einstein, Maurício de Souza, Santos Dumont, Woody Allen e Bach.
Rafael Cruz
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