Tecnologia e Cinema
Reeditando crítica publicada em meu blog Cucamonga em 15 de Outubro de 2006.
Ficha Técnica
Un couple parfait (França/Japão, 2005). De Nobuhiro Suwa. Com Bruno Todeschini, Joana Preiss, Nathalie Boutefeu, Valeria Bruni Tedeschi. Cores. Duração 104’.
Ao adotar uma linguagem pouco convencional em sua obra, o diretor Nobuhiro Suwa pode deixar transparecer aos espectadores um entendimento que pode não estar em total conformidade com a sua intenção. De fato, é um risco que qualquer cineasta corre ao promover mudanças. E isso se faz necessário para a evolução da linguagem da sétima arte. Deste modo, irei reproduzir abaixo alguns comentários sobre o filme, de acordo com o meu parco conhecimento da linguagem cinematográfica.
O filme é recheado de plano-sequências. O pequeno número de cortes é um fato bem interessante. O plano-sequência inicial, onde vemos o casal no banco traseiro de um veículo em movimento, apresenta pouco diálogo e uma colocação de câmera de impressão quase estática à cena. Outros planos-sequências seguem, geralmente, marcando o mesmo aspecto quase estático e muito lento a todo o filme. Em diversas situações, a imagem estacionava em um cenário, às vezes sem mesmo visualizarmos os personagens, escutando apenas alguns ruídos de cena, com uma estranha trilha-sonora. Essa combinação pode acarretar em uma perda sensível de atenção do espectador e uma má interpretação da trilha, pondo em dúvida se a mesma foi composta por um profissional voltado à reprodução da realidade da trama.
Também é claramente notável, em alguns momentos do filme, um “defeito” que escurece a tela por um segundo. Na verdade, esse “defeito” é um corte, que separa um plano-sequência do outro (no caso deste filme). Em meu entender, esse corte bruto afeta negativamente a estética da obra, incorporando-na uma imagem de desleixo com os detalhes, ou até mesmo amadorismo. A equipe podia fazer uso de técnicas de camuflagem de cortes, adotado brilhantemente por Alfred Hitchcock em alguns de seus filmes, e amenizar seu impacto no filme. Observei outros tipos de cortes, que eram reincindentes e menos anti-estéticos do que os cortes brutos analisados anteriormente, porém, de certa forma, desconfortantes, pois eram cortes secos. Penso que uma maior suavidade na transição de planos faria bem ao filme. Entendo que o diretor quisesse passar a impressão de inquietude e agonia do casal através da linguagem de sua obra, mas acredito que essa não foi a escolha mais indicada para esse tipo de filme.
Todo o filme é marcado por imagens muito fixas. Na maioria dos diálogos, não existe campo e contra-campo. A imagem é fixada em um personagem ou em uma cena e é discorrida a conversa. Em uma cena, o diretor conseguiu a proeza de manter a câmera fixa em um personagem e mesmo assim trabalhar com campo e contra-campo. O segredo foi um espelho bem colocado. A cena em que me refiro é a do casal dentro do apartamento. O marido fica em pé no quarto, perto da porta do banheiro, que está do lado oposto ao da cena e, portanto não visível ao espectador. Ele está mantendo um diálogo com a sua esposa, que está dentro deste banheiro. O efeito do diálogo com imagem fixa e personagens em diferentes cômodos é um espelho bem colocado, que permite mostrar aos espectadores a imagem da esposa de dentro do banheiro, em comunhão à imagem do marido no quarto, do lado oposto ao dela. Isso foi fantástico e de muita criatividade da equipe.
Outra linguagem não-convencional usada no filme foram os close-ups demorados. Talvez com a intenção de capturar toda a expressividade do personagem, o diretor tenha exagerado nestas tentativas, causando um certo desconcerto tanto na imagem quanto nas impressões do espectador.
Portanto, o uso dessa linguagem não-convencional no filme pode causar confusão e desinteresse em grande parte dos espectadores. Não quero dizer que eu seja contra ao uso deste não-convencionalismo, pelo contrário, acredito que este se faz necessário para a evolução do cinema, mas deve ser usado com cautela, preservando critérios e mantendo uma certa lógica, para não cair nas graças do não-entendimento estético da obra.
3 Comentários
Alex Gonçalves
February 4th, 2008 at 3:11 pm
1Rafael, interessante esta sua análise do filme “Um Casal Perfeito”, que, confesso, não o conhecia muito bem. Gostei da forma como você mencionou detalhadamente o uso da câmera e seus cortes e planos-sequências. O controle e inspiração para controlar tal equipamento são necessários para qualquer realizador.
Tenha um bom carnaval.
Rafael
February 4th, 2008 at 5:41 pm
2Obrigado Alex!
Escrevi esta crítica para um professor na Universidade. Ele nos mandou assistir ao filme no Festival do Rio em 2006 e escrever algo sobre o longa. Aí saiu isso, rs
Seu blog tem um ótimo conteúdo. Quer trocar links?
Bom carnaval!
Alex Gonçalves
February 5th, 2008 at 6:39 pm
3Rafael, talvez você tenha se esquecido, mas conheci o seu endereço através de um e-mail que você mesmo me enviou, rs.
O seu endereço já está relacionado a lista de Blogs e sempre passarei por aqui em outras oportunidades. Fico contente por ter gostado dos textos que publico – ainda que eu precise praticar bastante para sair algo bom, rs.
Até a próxima!
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